No primeiro livro, artista se divide em “Poesia”, “Prosa”, “Poesia Musicada” e “Caderninho”

Pierre Bourdieu (1930–2002) alertara no ensaio A ilusão biográfica (1986) sobre o perigo de condicionar integralmente a leitura de uma obra — forma, contexto, estilo e conteúdo — a elementos da trajetória pessoal de seu autor ou autora, como se um(a) explicasse o outro e o outro este (vago) um(a). A despeito de debates acirrados e intermináveis da questão, obviamente válidos, Ana Carolina avisa: “Esta é uma poesia-prosa autobiográfica”. Ruído Branco (Editora Planeta, 2016) nubla todas as distinções entre a compositora, a poeta e quaisquer personas que aqui se podem convergir. A Ana Carolina deste Ruído conflui sons, (outras) cores, vazios, dilemas e escuridões que, de tão complexas, ruidam no silêncio-paz da palavra de grito traído. A experiência é sinérgica: queima, porque o fogo é sua forja. Fere, porque ferida. Sangra e faz sangrar até a última gota, primordial de um eu reinventado na dor de ausências/presenças, vazios e alguns silêncios autoimpostos. Experiência de mulher, da menina-mulher que sempre a persegue para protegê-la, e ao corpo — sede encarnada d’alma, de si, coisa intermitentemente desconhecida. Da mulher à menina, da outra para o eu-menina ou de uma fronteira a outra da mesma imagem (ir)refletida, Ana atravessa em quatro seções o árduo caminho de ser, ver e ouvir uma solidão, a sua, fazendo-o busca para o silêncio companheiro, enfim reconciliado com a própria história. Ou não.
“Poesia” é pulo ao mar. A mulher que é, tornou-se. E assim se forjou. É o outro do “outro aqui dentro”. Se há homem em mulher e mulher em homem, ambos, então, apaixonam-se perdidamente no “meu silêncio entrecortado”. De si são sempre alheios. As ruas, físicas ou não, síntese deste movimento, atravessam-se calmas, embora o desejo em ser o que não se é devasse o de dentro. O canto levanta as memórias, suas e de si, inscritas na pele, travessia de dores e passados reinventados entre arrependimentos presentes. Este escuro “tem outro escuro dentro”. O escuro é o teatro sigiloso de si consigo mesma. Palavra é choro e, da música do MP3, Ana salta para pedir consolo. Logo ela, colo de todas/todos que lhe pediram socorro e companhia, mesmo de lágrimas, nos momentos de maior dor. Sabê-lo é música e, se é música, é toque. E colo de novo. É chão. Não há outra solução que o abraço definitivo, “pra sempre”, mesmo correndo-se o risco de não voltar a si. Ou a mim, ou a nós. A dor é seca, e o problema é nunca resolvê-la. Antes conseguisse submetê-la às palavras. A dor tem todas as idades.
“Prosa” é história dentro de histórias, lembrança do que foi ou se queria ser. E se é. Há a passagem pelas ruas do tempo em Firenze, onde esse caminhar entrecortou a solidão e foi ele mesmo solidão, choro de angústias passadas e recentes, dos erros silenciosos nunca contados, da completa efusão e tristeza repentinas, ou dos excessos e faltas. Há a descoberta de si em si mesma, e no corpo, ou corpos, em gozo. Ir era tão prazeroso quanto se derramar no desejo. “Não sabia sequer os nomes.” Sem dúvida, foi como ver um “arco-íris no céu”. Há a Amsterdã vista do quarto de um hotel — aliás, conhecida num quarto de hotel. Há o revolver de memórias ou lembranças furtivas do inconsciente na sala forrada de jornais e na tela, ou lona, em branco. Nem o vermelho basta para esconder o que se quer esconder, ou ao menos fingir. Não há azul, ou cinza, ou o violeta violento do envolvimento entre o vermelho-refúgio-esconderijo e o azul-homem-e-seu-inconsciente. Ana está em cima, no meio, entre. É “aquilo que passa”. Não há nome, significado ou fala que dê conta do ímpeto de ver-se acompanhada “das minhas dúvidas, do meu passado, da minha força”. O Café de Flore de Paris integra o pequeno grande pedaço da memória do amor que fervilhava e desfez-se nas “diferenças conversadas” e outros defeitos. A distância e o silêncio consomem, mesmo entre iguais. Nunca será possível concluir nada quando se trata do outro, ou outra. Não há calma. No fim, vai-se ao encontro e ao amor tudo torna. Até na imaginação, e no silêncio que aí há, forja-se a existência de si mesma, e da outra irmã, para proteção. Essa dor é terreno onde tudo cabe e ainda pode doer. É poço-sede de uma raiva intermitente por não realizar um a um os sonhos sonhados ontem, hoje e sempre. A selva que há em Ana se cala, e o nível do rio-água-espelho-de-si aumenta a ponto de não conseguir voltar. Ser quem se é, ou busca, exige uma travessia sem retorno, talvez a lugar nenhum. Se este movimento é caminho, então, que nunca se volte. Ou se arrependa. Também aqui, Ana mostra algumas pinturas ainda não conhecidas pelo grande público.

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“Poesia musicada” traz composições inéditas e sem registro fonográfico, embora Qual é? (Ana Carolina) tenha ganhado espaço na turnê do espetáculo Solo, iniciada em novembro de 2015. O “ruído branco” que dá nome ao livro também aparece no soar caótico de seus versos. A pele deste corpo, do fundo, do medo ou não do incansável, e do desconhecido, é a expressão que fica. Pele é poro, e poro tudo transmuta. Sacia à medida que é preenchido. Nada vem a qualquer preço. Se vale a pena, então, vale a pele. As poesias musicadas são mais uma dentre as várias peles de Ana dispostas nos momentos capturados pelas lentes de Nelson Faria.
“Caderninho” condensa as poesias escritas pela menina de 11/12 anos, que já em tenra palavra se deparava com seus sepulcros, alguns silêncios, almas penadas e os rastros dos pés de qualquer amor “no peito da gente”. Ela espera sem saber por quem mais pode esperar, a não ser por si mesma entre os próprios corredores d’alma. A Ana menina ainda escreve para não ser sempre sua única destinatária, embora, hoje, sua mensagem seja acolhida por tantas outras e vários outros. Na menina e na mulher, a felicidade existe entre uma tristeza quieta, feridas abertas para a autocura nunca totalmente alcançável. O tempo não as desperdiçou. Não desperdiçaria. A saudade chora, e a lágrima recolhida é melodia que embala e corta feito vidro na pele. Perdão dói, e na mulher não para de doer. Não parará. É preciso ter coragem para ser e viver mulher neste mundo.
Ana é coragem. Ana é liberdade. Ana é choro de branco mar que entra pelos olhos, agita e regurgita o que (me) invento. Não quero saber quem ela é, como vive, o que ouve ou sente. Se o fizer, irei desconhecê-la para sempre. Ler, cantar e ouvir Ana Carolina é desconhecê-la ainda mais, porque é a mim que encontro no escuro do escuro de dentro. A busca é pele e, se é pele, vale a pena.

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Texto: Thainá Seriz
Fotos: Nelson Faria
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