2013 – A tradução do tempo da artista

A tradução do tempo da artista

Em ponto de fervura, #AC expõe a diversidade da música de Ana Carolina em disco de tons e assuntos contemporâneos que concilia scratches e Chico Buarque

“Uma parte de mim
pesa, pondera.
Outra parte delira.

Uma parte de mim
é permanente.
Outra parte
se sabe de repente.”

(Traduzir-se, Ferreira Gullar)

Talvez nem os versos do poeta sejam suficientes para traduzir a diversidade da música de Ana Carolina, uma das artistas mais completas e populares do Brasil, cantora e compositora que, em 14 anos de carreira, já contabiliza 22 músicas em trilhas sonoras de novela e dois milhões de seguidores no Facebook. Caracterizado por essa diversidade, o sexto álbum de inéditas da artista, #AC, vai ser lançado em junho pelo selo da cantora, Armazém, com distribuição da Sony Music, simultaneamente com a turnê norte-americana que a cantora vai fazer por sete cidades dos EUA um ano após ter gravado com Tony Bennett a canção The very thought of you.

 

#AC é disco que aponta em uma direção pop, com uma mistura quente e explosiva como o refrão de Combustível (Ana Carolina e Edu Krieger) – a balada que já virou hit instantâneo e que turbina cenas da novela Amor à vida – e como Libido* (Ana Carolina e Edu Krieger), faixa direcionada para as pistas e impregnada de vocais sensuais (feitos pela própria Ana). Libido exemplifica o ponto de fervura que mantém elevada a temperatura de #AC. (*Libido estará presente  apenas na versão física do álbum que chega às lojas em junho)

Conectado com o seu tempo, #AC expõe uma multiplicidade conceitual que concilia desde scratches do DJ Cia – um dos mais hábeis do Brasil na arte do scratch – aos vocais de Chico Buarque de Holanda, convidado ilustre do samba Resposta da Rita (Ana Carolina e Edu Krieger).

Disco de tons e assuntos contemporâneos, que conecta Ana Carolina com temas atuais como as facilidades e atribulações do iPhone, #AC foi pilotado por Alê Siqueira – um dos mais requisitados produtores da atualidade – e pela própria artista com mix renovador de percussões (as de Leonardo Reis e Marcos Suzano), programações (pilotadas por time que inclui Mikael Mutti, o renomado DJ Cia, Alê Siqueira e a própria Ana Carolina) e scratches. Não há bateria. É um disco de groove e contrastes pautado tanto pela parte de Ana que experimenta e ousa, como na parceria com Guinga em tema, Leveza de valsa, produzida e escrita por Ana com precisão buarquiana, como pela parte que é permanentemente fluente no domínio do idioma pop. É quando a cantora e compositora fala a língua do povo em músicas como Poledance (Ana Carolina e Edu Krieger), faixa de #AC que perfila a garota de programa que “Sabe entreter / Tem troco pra cem / Bota pra ferver / Não troca o nome de ninguém” com metais em brasa arranjados pelo mago Lincoln Olivetti.

#AC bota pra ferver e traz em sua mistura 12 músicas inéditas selecionadas entre as cerca de 50 compostas por Ana Carolina ao longo dos últimos anos. Com a autoridade de quem coleciona grandes sucessos, a maioria na sua voz grave e quente, outros nas vozes de cantoras como Maria Bethânia (Pra rua me levar, 2001) e Mart’nália (Cabide, 2005), Ana Carolina conhece a força de um refrão – e há vários que grudarão nos corações e mentes de seu público, diversificado como sua obra – e de um gancho melódico que capture a atenção do ouvinte.

A tarimba de compositora versátil salta aos ouvidos ao longo de #AC, cuja temperatura elevada contrasta com a atmosfera cool do álbum anterior de Ana Carolina, N9ve (2009), trabalho de climas e vocais amenos. Contudo, a presença recorrente de Alê Siqueira na coprodução e a busca do requinte harmônico na formatação de composições de teor popular são heranças de N9ve.

mix de sons orgânicos – representados sobretudo pelas percussões de Leonardo Reis e Marcos Suzano e pelas guitarras de Pedro Baby – com batidas eletrônicas dá o tom contemporâneo do disco. Em Esperta (Ana Carolina, Chiara Civello e Edu Krieger), faixa que se conecta a Poledance e a Libido, todas alocadas no início do disco, as programações foram pilotadas a oito mãos por Alê Siqueira, Chiara Civello (a cantora e compositora italiana com quem Ana Carolina firmou parceria em Nove), DJ Cia e Mikael Mutti (baiano arretado que vem se destacando nesse universo eletrônico). Em Esperta, Ana Carolina joga na pista a dança das paixões. “Sei do inferno que eu criei / Na sua vida / Por isso é que você me quer / Então vai ter que me encarar”, avisa a cantora no refrão ganchudo.

Já em evidência nas rádios, na novela das nove e na internet, Combustível é uma das cinco faixas de #AC que têm Edu Krieger – carioca que despontou em 2006 como um dos mais talentosos compositores de sua geração – como parceiro de Ana Carolina, sedimentando conexão, que já rendeu músicas como o samba Pra tomar três, lançado no show Ensaio de cores (2010). É, na definição de Ana, uma parceria “viva”, na qual ambos criam letra e música juntos, sem regras e sem delimitação de funções. No caso de Combustível, a intenção foi fazer uma música acessível e inflamável, de comunicação imediata, sem cair na simplicidade harmônica. Resultado da evolução natural da compositora, passagens dissonantes na primeira parte da música orgulham Ana Carolina de conseguir conectar dois mundos musicais habitualmente distantes.

Em essência, #AC é disco de conexões. Por isso, o hashtag (#) – símbolo virtual que aponta palavras-chave no diálogo sucinto do Twitter – do título do CD soa natural. #AC é um disco do presente que eventualmente também se liga sem saudosismo ao passado. Tal link é exemplificado no samba Resposta da Rita, composto por Ana e Krieger em alusão a um dos primeiros sambas de Chico Buarque, A Rita, composto em 1965 e lançado pelo autor em gravação de 1966 usada por Ana como música incidental. A ideia da resposta foi de Maria Bethânia. No samba de 2012, Ana entra na pele da Rita – a que teria levado o sorriso e o assunto do personagem do samba de Chico – para dar a sua versão dos fatos após ter ficado calada por quase 50 anos. “Não levei o seu sorriso / Porque sempre tive o meu / Se você não tem assunto / A culpada não sou eu”, argumenta Rita, retrucando versos como “A Rita levou meu sorriso / No sorriso dela, meu assunto”.

O detalhe luxuoso é que Ana / Rita apresenta sua resposta na presença ilustre de Chico Buarque, que canta os versos de seu samba original numa região vocal mais grave para se ajustar ao tom da faixa. Primeiro ouve-se em #AC somente a Resposta da Rita. Depois, a resposta é intercalada com os versos de Chico. Detalhe: a harmonia do samba de Ana é a mesma do samba de Chico, capricho e orgulho da compositora.

link presente-passado é bisado em Pelo iPhone, faixa que ilustra a tendência de Ana Carolina de abordar assuntos atuais em #AC. A faixa, que insere células rítmicas do samba nas programações de Alê Siqueira e Mikael Mutti, alude já no título a Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida), tema de 1917 que é tido como o marco inaugural do samba. Pelo iPhone é parceria de Ana com o amigo Antonio Villeroy, autor de seu primeiro sucesso, Garganta, e compositor sempre presente em seus discos. Pelo iPhone bate na tecla e trata com humor dos torpedos perigosos que podem denunciar traições e abalar relações.“Por mais que eu delete o seu nome / Mesmo assim você não some, não some, não some”, dizem versos queixosos da letra.

Outra canção quente de #ACMais forte (Ana Carolina, Chiara Civello e Bungaro), é canção passional que ganha a moldura de um tango – em arranjo que remete à arquitetura de Dez minutos, sucesso do CD N9ve – e que apresenta mais um refrão forte do cancioneiro de Ana Carolina entre versos inflamados como “Eu rasgo os tecidos que lavam meus sonhos / Eu ando enxergando por trás dos meus olhos”. Coautor de Mais forte, Bungaro – para quem não liga o nome a sua música – é cantor e compositor italiano que está em cena desde 1988, bastante conhecido em seu país natal.

Além de Bungaro, #AC inclui outros novos nomes entre os parceiros de Ana Carolina. Bang bang 2 – música turbinada com arranjo que simula na introdução o clima de um faroeste ­– é parceria de Ana com Rodrigo Pitta, cantor, compositor e diretor teatral de São Paulo. No tiroteio entre programações, percussões e guitarras (curiosamente tocadas por Liminha enquanto Ana Carolina assume o baixo elétrico), Bang bang 2 representa bem #AC por ser convite à dança, à festa, à celebração da vida. “Essa noite eu quero dançar / Essa noite eu vou derreter / E quem sabe até encontrar / Alguém melhor que você”, diz o refrão caloroso.

Canção pra ti inaugura a parceria de Ana Carolina com Moreno Veloso e Carlos Rennó. A extensa letra lista ícones de diversas formas de arte para tentar dimensionar a paixão que move a personagem da música a compor uma canção para o ser amado. Uma canção que “(…) Fique no Youtube e se remixe / E passe como tudo, mas se fixe”. Paixão e vontade que, aliás, movem Ana Carolina como compositora na criação de obra que perpetue e seja regravada no futuro.

Sem se desviar de seu trilho de sucesso, Ana Carolina tem feito canções que não aceitam rótulos ou seguem fórmulas estabelecidas. #AC registra para a posteridade uma delas, Un sueño bajo el agua, parceria com Chiara Civello, produzida pelas cantoras com Alê Siqueira. Un sueño nasceu da despretensiosa vontade da artista de ter uma música que traduzisse as imagens de vídeo subaquático que havia filmado e editado, já que atualmente é movida pela sua nova paixão de dirigir seus próprios clipes. Com sua inusitada linha melódica e com verso cantado em intencional portunhol, Un sueño bajo el agua chegou ao topo das paradas de uma rádio carioca, sinalizando que a assinatura de Ana Carolina numa canção experimental já é, por si só, uma grife, um passaporte para o sucesso. Uma proeza para uma canção de versos também inusitados como “Alter ego Google prazo / Rio culpa copa afago / O Daime download, uma inundação / Um café uma fé digital / Gestos acrílicos Moma Mdma / Ipanema foi mal”.

Apresentada como faixa-bônus por destoar do conceito pop musical do disco (assim como a balada Luz acesa, já em rotação na trilha sonora da novela Flor do Caribe), Leveza de valsa – primeira parceria de Ana Carolina com o compositor e violonista carioca Guinga, feita originalmente para a trilha sonora do filme Meu país (2010) – também gerou clipe filmado sob a direção da cantora e participação do músico. Feita especialmente para o disco, a gravação ouvida em #AC é inédita e ostenta cordas arranjadas pela própria Ana Carolina, produtora da faixa. O virtuoso violão de nylon tocado por Guinga está na alma do tema, em sintonia com o violão de Ana. E, como a cantora tem enfatizado ao falar da música, é necessário conhecimento pleno do instrumento para estar em perfeita harmonia e equilíbrio em uma parceria com o Guinga. “O violão e suas infinitas possibilidades é o elo que nos uniu, que nos aproxima”, ressalta a artista.

Com seus grooves, seus violões, suas programações e seus versos inflamados, #AC traduz a diversa alma musical de Ana Carolina. Impregnado de atualidade, #AC é, em última instância, a tradução do tempo de Ana Carolina.

Mauro Ferreira